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Vamos entrar numa nova crise económica sem ter resolvido a anterior
13-11-2008 11:51:33

Portugal entrou numa nova crise económica sem ter resolvido os problemas causados pela anterior. E este é um facto inédito na história económica recente, refere João Salgueiro, presidente da Associação Portuguesa de Bancos. Contrariamente ao que sucedeu no passado, em que Portugal possuía a capacidade de desvalorização da moeda para relançar o crescimento económico, presentemente, só com a adopção de reformas estruturais (da justiça, do emprego, do ensino, do sistema fiscal) será possível relançar a competitividade da economia nacional.
E, contrariamente ao que tem sucedido, para tal é necessário que Portugal adopte as melhores práticas dos seus concorrentes a nível mundial. E, para que tal seja possível, Portugal tem que ter uma estratégia própria. João Salgueiro cita o exemplo da banca portuguesa que adoptou as melhores práticas a nível mundial para se afirmar como um sector competitivo.

 

CXO: Eu começaria por uma questão de carácter mais geral e perguntava-lhe qual o impacto que a crise financeira dos Estados Unidos da América está a ter e vai ter no sistema financeiro nacional e na economia nacional?

João Salgueiro: Uma questão em discussão é a de avaliar se o pior já passou. E acho que ninguém sabe. O que se sabe é que ainda está para durar. O horizonte de dificuldades tem vindo a ser prolongado. Sempre que há uma reunião internacional descobre-se que afinal os últimos números ainda não estão à vista e que tudo somado vai ser um encargo maior do que se imaginava. Em Portugal, felizmente não temos contágio por via da área financeira. Os bancos portugueses não investiram muito neste género de produtos. Contrariamente ao que aconteceu noutros países, como sejam os casos da Inglaterra, França e Alemanha
No entanto, é quase certo que venhamos a ter consequências na economia. E isto porque os nossos principais concorrentes tem vindo a reduzir as suas expectativas de crescimento, como seja o caso da Alemanha, dos Estados Unidos, da Espanha, do Reino Unido, da França. Os nossos exportadores irão ter maior dificuldade de penetração nestes mercados e esta realidade irá afectar a expansão da nossa economia e na actividade bancária.
Há dois factores que podem agravar esta realidade. Apesar de não afectar directamente os bancos, a instabilidade do sector financeiro vai acabar por afectar os clientes, nomeadamente através do encarecimento do crédito e do aumento do rigor na avaliação do risco. Os mercados inter-bancários foram bastante prejudicados e adoptaram atitudes de menor confiança no futuro. Muitos bancos que possuem liquidez emprestam com dificuldade porque não sabem se vão precisar dela no futuro.
Os mercados internacionais, nomeadamente da energia e, mais recentemente, da alimentação, são factores de risco acrescidos para a nossa economia. É uma conjugação muito negativa de factores, em que qualquer deles, isoladamente, provocaria perturbações na nossa economia.
Esta conjugação, que alguns referem como a maior crise desde 1929, sugerindo que até pode ser igual à de 29, irá levar a uma crise mais prolongada, mas menos aguda.

CXO: Neste cenário permanece optimista face à evolução da economia portuguesa e do sistema financeiro nacional?

João Salgueiro: Eu não gosto muito do optimismo ou do pessimismo. São estados de alma e os portugueses usam e abusam dos estados de alma. Uma das questões que coloco aos meus alunos na primeira aula é a seguinte: se eu disser que a economia portuguesa vai crescer 4% e a economia chinesa vai crescer 6% qual é a situação que acham que é optimismo e pessimismo. Se a economia chinesa crescer 6% é um péssimo resultado e se a economia portuguesa crescer 4% seria um excelente resultado.
Nós identificamos uma coisa má como pessimismo e uma coisa que nos parece boa com optimismo. Eu acho que precisamos de ser realistas e determinados. Eu prefiro menos estados de alma e mais actuações.
Precisamos de saber onde é que estamos e o que é que podemos fazer. Contudo, existem realidades incontroversas. Portugal não vai ter influência nos mercados mundiais, nem sequer nas políticas europeias. É muito pouco provável que a nossa opinião tenha peso. A União Europeia é cada vez mais um directório e os restantes países são relegados para a irrelevância. Não tem significado nenhum. Podem ser simpáticos, bons organizadores de presidências mas não tem influência nas políticas.
Senão podemos influenciar nem a conjuntura mundial, nem a política europeia, aquilo que podemos fazer é decidir aquilo que é mais útil para a nossa economia. Para tal é necessário mais determinação e mais rapidez a mudar aquilo que necessita de ser mudado.
Portugal vai sofrer com o arrefecimento da economia mundial e europeia mas se conseguirmos captar uma quota de mercado ligeiramente maior, tal poderá compensar. Houve anos em que conquistámos 15 pontos percentuais de quota de mercado. Não seria impossível se tomássemos medidas. A desvalorização do escudo era uma das medidas que, no passado, tínhamos à nossa disposição. Se pudéssemos desvalorizar o euro, Portugal seria beneficiado nos mercados mundiais. Mas tal não é pensável. O que está ao nosso alcance é colocarmos os mecanismos a funcionar melhor. E os portugueses sabem muito bem o que tem a fazer. Se bem me lembro que, desde o governo do Professor Mota Pinto, que se fala de reformas estruturais. E foi esta realidade que levou à constituição do Bloco Central em 1983. Desde esta data que sabemos o que temos que fazer.
Desde o novo quadro da União Europeia e da adopção da moeda única que nós sabemos que precisamos de ter comportamentos diferentes. E nós não fizemos isso. Fizemos muito bem o trabalho de casa para a entrada na União Europeia, antecipando o que estava acordado no tratado em três anos; na adopção da moeda única fomos dos quatro países do Sul o que teve o melhor desempenho.
Quando nos empenhamos numa coisa temos um excelente desempenho. Já tinha sido assim com a entrada na EFTA, nos acordos com o FMI, assim como na absorção dos refugiados de Angola e Moçambique. Em tudo aquilo que depende só de nós vai sendo adiado. E mesmo, presentemente, com muitas poucas excepções, estamos a fazer muitas reformas ‘light’. O Código de Trabalho é um exemplo do que estou a referir (ver caixa).
Aquilo que podemos fazer é fazer reformas a sério e mais depressa. Devíamos avaliar como podemos ter um sistema de justiça, um sistema de educação e um sistema de fiscalidade de primeira linha. Se conseguirmos fazer isto íamos assistir ao milagre português, á semelhança do que aconteceu na Irlanda e na Finlândia ou, mais recentemente, na República Popular da China.
A República Popular da China tem sessenta anos e os primeiros trinta anos foram um desastre. Este milagre económico que se vive na China aconteceu nos últimos trinta anos. Nas áreas em que introduziram regras de maior mobilidade, como a criação das zonas especiais e a autorização dos 5% para agricultura livre, provocaram uma explosão no crescimento económico.
Nós aqui temos um teste. Com os PIN. Estes programas são excepções às regras gerais. Não pagam impostos, tem subsídios para formação da mão-de-obra, tem uma via verde para a burocracia, as câmaras também disponibilizam condições especiais nos planos de urbanização para obtenção de terrenos mais baratos. A questão que coloca é a de saber como é que as pequenas e médias empresas podem sobreviver sem recurso a PIN.




 
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