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A YDreams está a criar tecnologias verdadeiramente revolucionárias
27-09-2007 10:10:19

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António da Câmara, CEO da YDreams
Criar uma empresa de base tecnológica com capacidades para competir à escala global foi o sonho dos fundadores da YDreams. Sete anos depois da sua criação, o sonho ameaça tornar-se uma realidade. E na base do sucesso, “relativo”, nas palavras de António da Câmara, Chief Executive Officer e fundador da empresa, encontra-se um novo modelo de computação, designado como “reality computing”. E com base neste novo modelo, a empresa está a “criar tecnologias verdadeiramente revolucionárias”. Contudo, tal só é possível devido à qualidade e criatividade dos recursos humanos. A contratação de pessoas com competências em áreas tão distintas como os materiais, a química, a biotecnologia, a electrónica, o design constitui um elemento diferenciador da empresa no mercado mundial, refere António da Câmara. 

A estratégia da empresa liderada por António da Câmara contemplou a criação de parcerias estratégicas com empresas nacionais, entre as quais se destaca a parceria com a Portugal Telecom para a comercialização do Sapo Home, um equipamento de acesso à Web com interface simplificada e que disponibiliza aos seus utilziadores informação de proximidade.
Neste contexto, António da Câmara acredita ser possível criar uma empresa cujo valor ultrapasse vários biliões de euros. Para tal, a empresa estruturou-se em redor de quatro unidades de negócio – Publicidade, Entretenimento, Educação e cultura e Qualidade de vida – que lhe possibitaram, nos primeiros tempos, a sobrevivência e que, presentemente, são unidades que poderão vir a ser autónomas e objecto de “spin-offs”.

Quais as razões do sucesso da YDreams a nível nacional e, principalmente, a nível internacional?
Em primeiro lugar é necessário definir o que é o sucesso. O sucesso da YDreams é relativo. Nós fomos bem sucedidos, em primeiro lugar, a sobreviver. Fomos bem sucedidos em obter investimento que nos permitisse o financiamento das actividades da YDreams. E estamos a ser bem sucedidos na tradução desse investimento num crescimento explosivo. Mas a medida do nosso sucesso é a cotação da empresa numa bolsa internacional e conseguir alcançar uma valorização da empresa superior à que temos hoje. Portanto, neste sentido ainda não podemos afirmar que fomos bem sucedidos. Contudo, o sucesso relativo foi alcançado.
A equipa que integra a YDreams acumulou conhecimento ao longo de vinte anos na Universidade Nova de Lisboa, período durante o qual competimos a nível internacional e no decorrer do qual fomos bem sucedidos a nível académico. E foi este conhecimento acumulado e os padrões de qualidade que foram adquiridos no decorrer deste período que nos permitiu sermos bem sucedidos.

Uma das razões subjacentes ao sucesso da YDreams, ou do relativo sucesso conforme refere, foi a definição de um novo modelo de computação. Poderia explicitar em que consiste este novo modelo de computação?
Essencialmente, existem dois modelos de computação. Há um modelo que é seguido pela maioria das empresas a nível mundial e cujo objectivo é permitir ao utilizador interagir com conteúdos que estão a uma distância tendente para o infinito. Esta é a base, por exemplo, do Google e da maior parte dos portais, e, eliminar a distância, tem sido um dos principais objectivos da computação. A YDreams decidiu focalizar-se no modelo oposto. A YDreams desenvolve soluções destinadas a que os utilizadores interajam com conteúdos que lhes estão próximos e em que a distância tende a ser zero e designamos este modelo de computação como “reality computing”. E este novo modelo de computação só é possível devido a dois desenvolvimentos recentes. Em primeiro lugar, a computação móvel e, em seguida, a computação invisível, na qual não dispomos de teclados, nem de “mouses” e em que a interacção é quase imediata. Presentemente estamos a desenvolver tecnologias verdadeiramente revolucionárias que possibilitem a adopção deste novo modelo de computação, em que o processamento não é necessariamente electrónico, em que utilizamos conceitos importados da biotecnologia e da nanotecnologia para permitir que qualquer superfície – papel, roupa, quadro de plástico – se torne uma superfície interactiva. E nestas áreas é que reside o potencial de crescimento da YDreams.
Recentemente, a revista Business Week procurou encomendar uma pizza com recurso ao Google e os resultados foram desastrosos. As necessidades das pessoas estão directamente relacionadas com a proximidade do local onde residem. A maior parte das actividades humanas decorrem de uma relação de proximidade. E as ferramentas disponíveis não são bem sucedidas.

São exactamente o oposto?
São exactamente o oposto. Este é o príncipio do YHome que vai ser disponibilizado no mercado nacional que irá permitir à generalidade das pessoas interagir com aquilo que está próximo.

O mercado dos jogos é um dos elementos do relativo sucesso da YDreams a nível internacional. Quais os factores diferenciadores da YDreams num mercado altamente competitivo como é o dos jogos e, em particular, os jogos para telefones celulares?
Existem três patamares fundamentais no mercado dos jogos a nível mundial. Em primeiro lugar, é necessário ter tecnologia distintiva; em segundo lugar, é necessário ter marcas e, em terceiro lugar é necessário criar o canal de distribuição. A YDreams não possuía recursos para adquirir marcas e não tendo marcas torna-se muito difícil criar um canal de distribuição. Assim, desde o início que a Ydreams apostou na tecnologia distintiva. E neste domínio apostámos nas competências que vinham do nosso percurso académico - nos jogos baseados em localização. Fomos pioneiros neste tipo de jogos com interface visual.
A título de exemplo posso referir que no decorrer do Games Developer Conference, a maior conferência sobre jogos a nível mundial, houve uma competição – Mobile Innovation Hunt – em que entraram 250 concorrentes, na qual foram seleccionados 15 finalistas que tinham que apresentar os jogos para uma assembleia de mil pessoas e o jogo desenvolvido pela YDreams – Wall Street Fighter – ficou ns cinco primeiros. O mesmo jogo foi finalista e acabou por assegurar o segundo lugar na Navtec Location Based Services Challenge, competição onde entraram 350 concorrentes. E este jogo é uma síntese dos desenvolvimentos alcançados pela YDreams nesta área. Nesta área a YDreams alcançou a liderança global.
Desde que obtivemos o investimento procurámos, não só ter a tecnologia, como construir a marca. Por isso fizemos um acordo com o Cristiano Ronaldo para o desenvolvimento do jogo. E a partir desta marca conseguimos criar uma rede de distribuição que, presentemente, inclui os 50 mais importantes mercados a nível mundial. Actualmente, temos a tecnologia, temos uma marca (esperamos conseguir construir outras a curto prazo) e uma rede de distribuição com cobertura global.

À semelhança do modelo de computação que definiu, os jogos vão abandonar os PC e as consolas e ser transportados para outro tipo de equipamentos ou, as consolas vão evoluir para esse tipo de modelo?
A nova Nintendo Wii é baseada na computação invisível. Exactamente o modelo que nós desenvolvemos. O mercado de jogos vai atravessar vários desenvolvimentos. Em primeiro lugar, actualmente, existe um recurso excessivo à modelação 3D e isto traduz-se em custos de desenvolvimento de novos jogos estratosféricos, em particular para as plataformas mais exigentes. Não faz grande sentido porque vai ser possível utilizar imagens reais, assim como a inserção de actores virtuais em imagens reais eliminando, deste modo, a necessidade da modelação 3D. Por outro lado, as interfaces vão ser cada vez mais simples. A Nintendo Wii e o Eye Toy da Playstation são o primeiro esforço de adaptabilidade a este novo conceito. Há ainda uma terceira tendência que está relacionada com o facto das pessoas quererem colaborar e participar e os jogos online vão ser um marco fundamental. E os jogos online vão-se cruzar com eventos. Assim, vamos ter eventos que são jogos e muitos desses jogos vão cruzar-se com eventos reais. Por exemplo, estamos a assistir uma corrida de F1 e há pessoas a correr em carros virtuais em casa contra os carros reais.
A YDreams vai beneficiar do acordo realizado recentemente com a Universidade do Texas. Em Austin estão sediadas algumas das melhores empresas de jogos online. E a YDreams possui uma superioridade relativamente a estas empresas na área móvel.  Nós acreditamos que estamos bem posicionados neste novo futuro híbrido que vai ser o mercado do entretenimento.

O sucesso da YDreams não passa somente pela área de jogos. A empresa está estruturada em redor de quatro áreas. É estratégico para a sobrevivência da empresa não depender apenas de uma área de negócio?
António da Câmara: O nosso modelo foi a Hewlett-Packard. A Hewlett-Packard quando surgiu resolveu que para sobreviver fazia todo o tipo de projectos. Gradualmente, utilizou o dinheiro ganho nestes projectos no desenvolvimento de produtos e, seguidamente, estruturou-se em divisões. E muitas dessas divisões tornaram-se completamente autónomas. E este é o modelo que temos seguido desde a criação da Ydreams. Nós começámos a desenvolver produtos e, a partir de certa altura, começámos a achar que existiam quatro mercados em poderíamos competir - ambiente e qualidade de vida, cultura, publicidade e entretenimento, em particular móvel – e começámos a desenvolver essas áreas. Neste momento, estamos na fase de fazermos “spin-offs”, de dar autonomia a essas áreas, em particular a área de entretenimento. Assim, estamos a estruturar a YDreams como um conjunto de “spin-offs”, “joint-ventures” com outras grandes empresas e guardar o “core” da YDreams para ser um laboratório de investigação e um laboratório de mercado. As nossas divisões actuais vão ser laboratórios de mercado de onde saem produtos que vão dar origem a “spin-offs” ou “joint-ventures” com outras empresas. E, deste modo, achamos que criamos um ecossistema muito mais robusto do que afirmar-nos como uma empresa monoproduto. O nosso modelo não tem nada a ver com o modelo americano ou britânico que se baseia na criação de empresas de um só produto.
E, felizmente, temos o apoio dos nossos investidores para este novo modelo de negócio. Nós queremos criar uma empresa de longo prazo. O que não impede a criação de “spin-offs” que possam ser vendidos, colocados em Bolsa ou qualquer outra forma de realizar capital.

A estratégia adoptada permitiu a sobrevivência e uma certa robustez no funcionamento da YDreams. Contudo, não teme que com a realização de “spin-offs” a empresa perca alguns dos activos mais importantes, ou os activos mais significativos permanecem na empresa e aquilo que é objectivo do “spin-off” é tão somente a capacidade de comercialização dessses produtos?
Os activos mais importantes da Ydreams são as pessoas. E as pessoas fulcrais vão permanecer na empresa. Para lá do conhecimento acumulado que já referi, a capacidade de gerar novas ideias é uma das vantagens que possuímos. Temos pessoas altamente criativas que geram produtos em qualquer altura. E neste momento, porque estamos imersos no mercado, os produtos criados estão muito mais ajustados ao mercado do que aqueles que fazíamos quando começámos a empresa.

A Ydreams acredita que tem condições para liderar este novo modelo de computação a nível mundial ?
Absolutamente. Acreditamos que temos condições para liderar este novo modelo. A YDreams tem estado presente em vários concursos internacionais, promovidos pela BBC, pela Nokia, pela Adidas, e, presentemente, temos a noção de quem são os nossos concorrentes a nível internacional. E neste processo temos aprendido muito. Temos aprendido quais as nossas forças e quais os nossos pontos fracos. E acreditamos que podemos liderar por duas razões. Em primeiro lugar, porque já provámos que podemos competir com qualquer empresa. Mas nós temos uma vantagem enorme. A YDreams está a criar tecnologias verdadeiramente revolucionárias. Sabemos que não há nenhuma empresa nas linhas em que estamos a investigar. Estamos a trabalhar nos últimos dois anos de um modo totalmente secreto e acompanhamos toda a investigação que se faz a nível mundial e sabemos que, dificilmente, alguém esteja a fazer algo semelhante e o que me dá a segurança para fazer esta afirmação é a mistura de competências que estamos a incluri nos nossos produtos.
É muito raro que exista uma empresa com recursos humanos com competências em materiais, química, biotecnologia, electrónica, design e a trabalhar conjuntamente. Basicamente, as empresas existentes são verticalizadas e possuem a tendência de se focalizar num só produto. E, esta aparente dispersão confere vantagens competitivas à Ydreams.
Mas há outro factor importante. Nós estamos associados às maiores empresas portuguesas. Empresas que actuam no mercado global e queremos que seja uma afirmação tecnológica nacional e estamos convictos que estas associações que possuem outro poder financeiros e comercial podem-nos conferir enormes vantagens.

Qual o resultado dessas parcerias? Capacidade de distribuição, financiamento ...
Em primeiro lugar, na criação conjunta de produtos. A YDreams tem vindo a trabalhar com um grupo alargado de empresas, entre as quais duas das maiores empresas nacionais, e estamos a criar produtos e a definir estratégias de comercialização destes produtos no mercado.

Será também um modo de criar novos produtos mas, também, criar novos canais de comercialização para esses produtos?
Sem dúvida. E nos dois casos que referi estamos a pensar globalmente.

Pode dar mais detalhes dos projectos em que a Ydreams está envolvida com estas empresas?
Nós temos uma parceria com a Portugal Telecom para o lançamento do Sapo Home, baseado num produto anteriormente desenvolvido – Yhome – que será desenvolvido em diferentes vertentes (residências, saúde), e para acesso a info-excluídos. Este produto é um misto de hardware e de software, que na sua versão mais avançada terá televisão sobre IP, e vai poder funcionar como computador, com uma interface muito simples, com conteúdos extremamente simples e que em três cliques os utilizadores poderão ter acesso à informação de que necessitam e, esta informação, é local. É informação de proximidade. Vamos iniciar a comercialização no mercado nacional mas queremos vir a comercializá-lo a nível mundial.

É apenas um equipamento de acesso a conteúdos ou possui outras funcionalidades?
É um equipamento concebido para residências, extremamente focalizado nas necessidades das pessoas, é um equipamento “always on” (diferente dos PC que necessitam de ser ligados) e acreditamos que pode ser um produto revolucionário. Este é um produto que tem condições para ser comercializado a nível mundial.
Queremos ainda desenvolver uma versão deste produto para o mercado da saúde. Criámos uma parceria com uma empresa inglesa que desenvolve sensores vitais que podem ser conectados a este novo equipamento, e este equipamento poderá comunicar com o médico ou com o hospital. O mercado potencial para este tipo de produtos é enorme.

Acredita que este tipo de equipamento poderá ter um sucesso no mercado residencial idêntico aquele que os computadores pessoais tiveram no interior das empresas?
Nós acreditamos que sim. Vamos ainda tentar que todos estes equipamentos venham a ser produzidos no território nacional.

E existem competências no mercado nacional para assegurar a produção desses equipamentos?
Existe um conjunto de empresas que trabalharam como parceiros da indústria automóvel e que possuem essas capacidades. Se formos bem sucedidos na estratégia de difusão deste novo equipamento os números são astronómicos. Em termos futuros, a YDreams está a desenvolver projectos em redor do papel interactivo. Mas este é um produto, revolucionário, mas que irá demorar mais tempo a chegar ao mercado.

Este tipo de produtos posiciona a YDreams como um concorrente das maiores empresas de tecnologias de informação e comunicações a nível mundial. Não receia a diferença de escala, mesmo com um parceiro forte como é a Portugal Telecom?
É óbvio que sim. Contudo, existem duas componentes importantes. Em primeiro lugar, temos vindo a acautelar a propriedade intelectual. Desde que realizámos o investimento que adoptámos uma estratégia
muito forte nesta área e vamos continuar a ter. E isto é fundamental neste mercado. Por outro lado, estamos a desenvolver parcerias, não só com a Portugal Telecom, que nos permitam enfrentar a concorrência com sucesso.
Há uma enorme vantagem em estar em Portugal. Nós podemos desenvolver, testar sem ninguém saber. Ninguém acredita que é possível. É evidente que sozinhos não temos qualquer hipótese, mas a Portugal Telecom é uma grande empresa, está cotada na Bolsa de Nova Iorque, é uma das 500 maiores empresas a nível mundial. É uma empresa com algum peso. E vamos adoptar estratégia idêntica relativamente a outros produtos. A YDreams não possui estrutura de vendas, não temos condições para a criar – o investimento seria brutal para uma empresa com as características da YDreams – e não possuímos a experiência necessária. Daí que estas parcerias sejam fundamentais e são caminho para que Portugal criar empresas com alguma dimensão.

A capacidade de concorrência da YDreams no mercado tecnológico internacional é um dos aspectos que surpreende a generalidade das pessoas. Normalmente, associa-se às empresas nacionais uma incapacidade de execução. Contudo, a YDreams concilia o desenvolvimento de produtos de extrema qualidade com uma capacidade de execução superior. Como é que a empresa se organizou para que tal seja possível?
Tudo está dependente dos recursos humanos. Nós congregámos na YDreams um conjunto de pessoas, provenientes da universidade, de outras empresas nacionais (Chipidea, Altitude), de empresas multinacionais, que possuíam experiência internacional. E este é um elemento fundamental. Por outro lado, criámos um sistema de gestão, um sistema de planeamento de gestão de projectos e um sistema de controle de qualidade e, todos estes sistemas, permitiram que a YDreams tenha conseguido responder aos desafios que se foram colocando.

A YDreams nasceu com um projecto de internacionalização das suas actvidades. E a estratégia de internacionalização não privilegiava apenas os países de expressão portuguesa ou o mercado espanhol como é tradicional nos projectos de internacionalização das empresas portuguesas. A estratégia definida contemplou o mercado global. Acredita que este foi um elemento diferenciador da actuação da YDreams?
Sem duvida. A exigência e os padrões de qualidade são os factores que motivam as pessoas. Nós trabalhamos com empresas a nível mundial que tem padrões de exigência elevados. Deste modo, toda a organização tem que se ajustar a estes padrões de qualidade e a este grau de exigência. E nós já sabíamos desta realidade. Quando estávamos na Universidade privilegiámos as conferências de alto nível e procurávamos publicar nas melhores revistas científicas. É assim que se progride.

O professor estudou e viveu nos Estados Unidos. O que o levou a regressar a Portugal?
António da Câmara: A última vez que estive nos Estados Unidos, em 1998-1999,  estava extremamente cansado com as condições de trabalho no nosso país. Achava que era extremamente difícil levar a cabo projectos de dimensão em Portugal. O meu antigo orientador no MIT convidou-me para ir trabalhar para lá e estive lá um ano e, nesta altura, considerei seriamente a hipótese de não regressar a Portugal. E este pensamento tem sido recorrente ao longo da minha vida profissional. Há momentos em que olhamos para Portugal e vimos um país incrivelmente difícil. Apesar de ser um país bastante competitivo, é incomparavelmente mais fácil porque existem muitas oportunidades.
Mas existem três razões para que eu, e a maioria dos portugueses, tenha optado por regressar a Portugal. Em primeiro lugar, as relações pessoais, a família, os amigos. Existe uma teia de suporte que não existe nos Estados Unidos. Por outro lado, e apesar de tudo o que referi, há pessoas em Portugal dotadas de uma mentalidade aberta. Nós temos tido projectos pioneiros no território nacional que seriam impensáveis em Espanha ou na Holanda, que são mercados bastante pragmáticos. Ainda há pessoas em Portugal que sonham. E se nós tivermos a sorte de as encontrar, e nós tivemos essa sorte, é possível fazer algo de verdadeiramente diferente. Não há um pragmatismo dominante, uma mentalidade de retorno do investimento que existe nos países mais avançados. É por essa razão que em Portugal surgem, por vezes, projectos únicos. E, por último, existe um dever. Eu fui um privilegiado toda a vida, beneficiei de imensos apoios e existe um dever de retribuir estas condições. Nós possuímos talentos e seria uma perspectiva egoísta, quando temos as condições para ajudar o talento a desenvolver-se, permanecer nos Estados Unidos, beneficiar de uma certa comodidade, e olhar para Portugal com um certo desprezo, criticando o que se faz no nosso território. Em última análise existe um dever de ajudar Portugal a alcançar outro patamar de desenvolvimento. Quando regressei achei que forma de conseguir estes objectivos era abandonando a Universidade e optando por criar uma empresa.  O sistema organizacional das universidades portuguesas impede a concretização destes objectivos. É impossível na estrutura universitária, com as mesmas pessoas, fazer aquilo que conseguimos fazer com a YDreams. E esta realidade deveria ser motivo de reflexão na universidade. Que raio de sistema organizacional possui a universidade que castra as pessoas a este nível.

Que, em última análise, impede a inovação?
Exacto. É um sistema imbecil.

Acredita que é possível Portugal desenvolver um sector de base tecnológica competitivo à escala internacional?
Existem dois lados da questão. Por um lado, a capacidade de invenção, por outro, e para que possa existir inovação, a invenção tem que ser comprada, e tem que ser comprada em larga escala. E se nós dominamos a primeira parte do processo, nós não dominamos a segunda. Nós acreditamos que temos produtos para o mercado global mas não sabemos se eles vão ser adquiridos. E como a segunda parte é totalmente incerta, existe uma enorme incerteza. Neste momento, e a experiência da YDreams demonstra-o, que é possível. Nós acreditamos que, se tivermos sorte, podemos criar uma empresa de vários biliões de euros.

Tal seria possível de um modo estruturado?
Claro. Há n portugueses com capacidade de inventar novos Skypes. Ou outras empresas desse tipo. Os portugueses tem a imaginação e o talento necessário. Ainda não aconteceu. E pode não vir a acontecer. Não está integralmente dependente de nós.

Acredita que a YDreams possa ter a capacidade de contribuir para a criação de um conjunto de empresas de base tecnológica, em particular com o lançamento do Sapo Home?
A YDreams ainda é uma empresa de pequena dimensão. Temos 150 pessoas, recebemos investimento há apenas um ano. Até há um ano atrás éramos uma empresa que lutava para sobreviver. Não podemos ainda ter essa pretensão. Esse papel cabe a empresas como Portugal Telecom e a EDP. Contudo, dentro das limitadas capacidades de que dispomos, temos contribuído para criação de um ecosistema de empresas que trabalham connosco e que esperamos que cresçam em simultâneo com o nosso crescimento. A YDreams conseguiu alcançar um nível de credibilidade que nos permite trabalhar com empresas como a Portugal Telecom para alcançar o mercado global. N momento em que formos bem sucedidos, e acreditamos que vamos ser verdadeiramente bem sucedidos, poderemos vir a ser um motor. Mas não temos a pretensão de ser o único motor. É possível que a YDreams venha a ter um papel relevante neste sector. Basta haver uma empresa em Portugal com um valor superior a vários biliões de euros nesta área para que tudo possa mudar. Existe um efeito de arrastamento, de confiança nos empreendedores que existem neste país e que querem criar novas empresas.

Tem referido com frequência a importância dos recursos humanos no sucesso da YDreams. Acredita que o nosso sistema educativo está a gerar as competências necessárias para esta mudança de paradigma que estamos a assistir?
Não. Infelizmente não. Eu conheço melhor o sistema universitário e existe uma enorme distância entre o que é a lógica do ensino  como é considerada pelos professores e, infelizmente pelos estudantes, e as universidades mundiais. Se nós olharmos para o modelo universitário de Stanford, MIT ou Cambridge, que são os viveiros das grandes empresas a diferença é abissal. E existem dois factores essenciais. Em primeiro lugar, o sistema universitário não estimula a criatividade, nem premeia os criativos. Não premeia os visionários que são aqueles que tem as ideias. Pelo contrário, reprime-os. O que o nosso ensino universitário promove são pessoas convencionais, dotadas de ideias convencionais. E isto é gravíssimo. Mas o segundo factor está relacionado com o facto de que o nosso sistema de ensino universitário não prepara as pessoas para o mundo da economia. Nem os professores, nem os estudantes entendem o que é o sistema capitalista. E não percebendo o que é o sistema capitalista é impossível alguém sobreviver neste sistema. O que mais me surpreende quando chego a Cambridge é que as pessoas percebem os mecanismos da Bolsa. Com excepção dos de Economia, quantos professores e estudantes portugueses percebem o funcionamento da Bolsa?
E estes dois factores são dramáticos. O ensino universitário tem que apostar na investigação, porque é a investigação que estimula a criatividade. E depois tem que dotar os estudantes com as ferramentas necessárias para sobreviver neste mundo capitalista. Tem que saber de gestão, de marketing, e não sabem. E o que acontece quando saem da universidade, é que são talentosos, mas não tem a menor das noções relativamente ao mundo dos negócios. Não fazem a mais pequena ideia do que é um modelo de negócio. O sistema de ensino nacional, em particular o universitário, tem que mudar radicalmente. E esta realidade é uma das preocupações da YDreams. Porque se a empresa crescer, e já está acontecer em algumas empresas, é extremamente difícil contratar pessoas capazes. Estas não possuem o modelo mental adequado a esta nova realidade.
Este é um dos problemas mais sérios que enfrentamos. O que me espanta é que existem países bem sucedidos. E estes países são bem sucedidos em grande medida pelo sistema de ensino que possuem.
A YDreams possui características algo diferentes das restantes empresas de base tecnológica com a inclusão de recursos com formações académicas muito distintas. Para lá de ser uma característica da YDreams, acredita que as competências das empresas no futuro deverão deverão ser muito mais interdisciplinares?
O MIT desenvolveu um modelo para as empresas digitais. Segundo este modelo, num primeiro nível estão as novas ideias, depois, num segundo nível, estão a gestão, o financiamento, o marketing. Logo a seguir vem o nível dos conteúdos e das interfaces e, por último, a componente tecnológica que inclui a energia, as comunicações, os sistemas operativos. E se nós olharmos para cada uma destas camadas nós necessitamos de pessoas com competências diferentes. Nós necessitamos de engenheiros, mas também necessitamos de pessoas que percebam de conteúdos, de interfaces, de marketing, de design. Presentemente, nenhum produto é comercializado como no passado. O factor diferenciador dos produtos de base tecnológica é o design. Porque é aquilo que as pessoas vêm e com que interagem. Na YDreams demos poder aos designers porque são eles que determinam o sucesso do produto. E esta é uma componente totalmente ausente no sistema de ensino universitário nacional. Este conceito é transversal às empresas.

Como é que consegue, de um ponto de vista organizacional, conciliar um ambiente informal, propicio à criatividade, com a necessária formalidade que uma empresa necessita de ter?
Estamos a finalizar a construção do novo edifício da YDreams no campus do Monte da Caparica. E este novo edifício sintetiza o espírito da empresa. Neste edifício, todos os empregados vão ter um espaço de dois por três metros onde podem fazer o que lhes apetecer. A empresa apenas lhes disponibiliza uma mesa e uma cadeira. E este é o mundo físico e tangível em que possuem a liberdade total. Mas a YDreams necessita de cumprir prazos e de desenvolver produtos. E para suportar esta componente, desenvolvemos um sistema estruturado em três peças de software. Em primeiro lugar, a nossa intranet – YNet – uma ferramenta de gestão de projectos; depois desenvolvemos um wiki interno, onde toda a informação da empresa é armazenada, editada e acedida e, por último, para a gestão da empresa implementámos a aplicação da SAP. E a nossa intranet, composta por estas três componente essenciais, é o coração da empresa, que liga as pessoas à escala temporal. E é este sistema que nos permite a capacidade de execução que possuímos. E, adicionalmente, a existência de gestores de projectos com experiência.
 
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